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15o. Domingo do Tempo Comum Ano "A" LECIONÁRIO LITÚRGICO Gênesis 25,19-34 – Desprezo pelo direito de
primogenitura Salmo 119,105-112 –
Estou aflitíssimo com os querem destruir...
Romanos 8,1-11 – Toda a criação geme pela
salvação! Mateus 13,1-9; 18-23 – A semente é a palavra de salvação. ONDE ESTÃO OS
CRISTÃOS?
Precisamos da ajuda das
Escrituras por inteiro, para compreender que o “quê” a palavra de Deus nos
comunica não é lançado no vazio, mas é dirigido aos ‘terrenos cultivados’,
ou seja, a todas as pessoas que com devoção e carinho preparam sua mente e
seus sentimentos para que seja eficaz a Palavra de Deus que elas recebem
por meio dos profetas, aqueles que mostram os sinais dos tempos. Deste
modo a comparação ressalta dois elementos muito importantes: a Palavra de
Deus se dirige aos solos férteis onde a semente já repousa e a palavra
retorna à sua fonte de origem: o coração dos homens.
A vida humana é frágil,
sem a proteção contra as forças natureza, a agressão de seus semelhantes e
do ambiente em que está, condenada à destruição. Sofrendo sob finitude, sendo
vulnerável, imperfeita e indefesa, as palavras proféticas dos cristãos não
permitirão que a esperança seja sufocada no conformismo com o sofrimento e
a dor da Criação violentada. Na angústia de não-ser, só as promessas de
Deus poderão alimentar a fé e a esperança no sentido de se alcançar a
plenitude e a justiça do Reino de Deus para um mundo que sofre toda ordem
de opressão e angústia. Entre os mais profundos anseios humanos, a
salvação da Criação se inclui na concepção de um mundo sem males, uma
existência defendida preservada como dom de Deus, conforme relatam os
evangelhos. Entre nós, latino-americanos, o flagelo da injustiça, as
desigualdades na exclusão social, a absoluta miséria de grande parte da
população, conferem o direito de clamar por salvação. Os gemidos
lancinantes da terra toda chegam ao trono do Deus que reina sobre os
homens e o mundo criado. O cântico ecumênico clama: “Venha o teu Reino,
Senhor, / a festa da vida recria, / a nossa espera e ardor / transforma em
plena alegria”! Teillard Chardin (Hino à
Matéria), faz uma leitura muito positiva nessa linha: este mundo não pode
ignorar a evolução da Criação, o Criador não criou um mundo destinado a
permanecer extático, para ser contemplado como imutável, desde priscas
eras, nos primórdios do tempo. Se assim fora, os seres vivos estariam
condenados à fossilização, e com eles ao empedramento da própria
vida. A obra de Deus é para o
homem, está em suas mãos. Desenvolvê-la de forma sustentável, não o
contrário (exaurindo os recursos sem reaproveitá-los), reintegrando e
recriando processos novos de preservação, torna-se essencial como parte
das intenções de Deus, enquanto a questão de fundo é a sustentação da
vida. A Criação também necessita de salvação, tem que participar da
libertação; o que se formou no universo criado é parte da história humana,
de nosso ser, espera pela graça e pela salvação.
A realidade visível não
esconde a realidade profunda que nos cabe ver. Uma nova ética ecológica
nos remeteria imediatamente para Gênesis 3, em referência ao pecado maior
da humanidade, que se definiu no projeto de destruição e desmonte do mundo
criado, desde então. Paulo quer uma leitura nova, ainda no seu tempo: o
pecado da humanidade não reside somente no interior íntimo de cada um, mas
se estende pelo que se verifica no exterior, os sistemas que o homem cria;
a vida é uma condição absoluta, existe para ser preservada. A sustentação
e desenvolvimento da vida humana, juntamente com a preservação do mundo
criado, é uma questão
ampliada, entre as conseqüências mais importantes. O direito universal de
sobrevivência de todos os seres é algo sagrado. A vida é sagrada,
inclusive a dos humanos, afetados profundamente pela exclusão no mundo
econômico do nosso tempo. Endividados injustamente, sem possibilidade de
se resgatarem débitos impostos, como povo e nação, a sobrevivência humana
permanece francamente comprometida. Um outro mundo, liberto, redimido, é
parte do que herdarão as futuras gerações, se entendemos a oferta de
resgate da vida e reconciliação, da parte de Deus.Ouçamos Karl Barth: "É
Deus que vem ao encontro do homem", para
salvá-lo. A vida de fé,
comprometida com as lutas dos oprimidos, nesse caso a humanidade inteira,
se pensamos numa ética salvadora inspirada na teologia paulina, refere-se
ao confronto necessário com as grandes corporações, como o G-8, que
controlam economicamente o mundo todo, determinando as conseqüências que
assolam impiedosamente mais de 4 bilhões de seres humanos. Quem se recusa
sistematicamente a observar o acordo de Kioto, em sua referência sobre o
controle ambiental do mundo, insiste em sua ênfase de desenvolvimento
econômico sem sustentação da vida.
Não promete servir ao bem-comum, resulta na insistência de escolher
apenas um hemisfério, acima da linha do Equador, para um desenvolvimento
de privilegiados e já “incluídos” no mundo desenvolvido. A mudança da
práxis exige também uma mudança da “fé”. Onde estão os cristãos? Com os
que discriminam os povos? Com os que incluem a humanidade inteira no
projeto de Jesus Cristo, o Reino de Deus?
A semente que cai em
terras distintas compara-se com atitudes distintas induzidas pelo
Evangelho. É a Palavra de Deus que conduz nossa história; que cria uma
relação harmoniosa, de muita beleza e muitos sentidos libertadores. Não
podemos negar que estes sentidos, nessa parábola, nos apontam os sentidos
da vida plena, conjugada, sintonizada com a libertação dos homens e
mulheres, em todos os momentos, num mundo ameaçado de destruição. Não
resta dúvida de que o semeador é o profeta de Nazaré: o semeador sabe que
o que se semeia colhe-se no final. Nesse caso, a Palavra de Jesus ilumina
e salva! Quem sobreviver verá.
No texto da Carta aos Romanos (8,1-11), temos a mostra de um texto que se afina com os recentes conceitos de “ecologia.” Ninguém ignora que esse campo de estudos e observações comporta, hoje, uma luta feroz pela sobrevivência da humanidade. Teólogos expressivos, como Leonardo Boff, Enrique Dussel (ref. Ética da Vida, Letraviva; Ética Ecológica, Material de Libertação, in: Por Um Mundo Otro, coord. Jorge Pixley, Clai), dedicam-se a desmistificar concepções fantasiosas do céu e do inferno, herdadas na maioria das vezes da teologia medieval, onde os exércitos de Satanás, cortes angelicais, impressionavam tão fortemente as pessoas. Na insistência fundamentalista de sustentar ideologias no lugar da teologia, se esquece da linguagem apocalíptica de Paulo, assimilável facilmente pelo ambiente judaico de seu tempo, sobre a sorte do mundo e o destino da Criação, a qual está apontando com veemência, vigorosamente, que a salvação do próprio homem está vinculada à sobrevivência do mundo em que vive.
Texto: Derval Dasilio [LEIA MAIS SOBRE O AUTOR] |