14o. Domingo do Tempo Comum

 

            Ano "A"       


LECIONÁRIO LITÚRGICO
 

Gênesis 24,34-38, 42-49, 58-67 – Senhor, leva a bom termo minha jornada!

Salmo 45,10-17 –  Senhor, nos teus lábios transborda a misericórdia

Romanos 7, 15-25 –  Por que não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero?

Mateus 11,16-19, 25-30 – “...tocamos a flauta, e não dançastes; entoamos lamentos, e não chorastes...”

   


ESCORRAÇADOS IMPIEDOSAMENTE DO CÍRCULO PRIVILEGIADO...

 

Temos um convite para desfrutar a alegria da vida com Deus, viver. Vida bem-aventurada, no chamado de Jesus. Evidente é que o gozo, a alegria, se apóia na beleza e na simplicidade, no observar dos mais humildes, ingênuos, pacíficos, não-violentos, enfim, os que são amados por Deus. Tudo isso porque Cristo, antes de tudo revelação de Deus, é aquele que se apresenta com um coração terno, manso, pacificador dos homens e das mulheres, e não como alguém em busca de vitória, de sucesso a qualquer custo, impondo-se sobre os outros, com força intelectual ou política. Ou pelo poder econômico. Um exemplo para a paz na igreja. É também sinal de acolhimento dos maltratados pela vida, oprimidos. Até mesmo pelo fato de estarem vivos, incomodando com sua pobreza e miséria  o mundo hostil. Um mundo eivado de sinais de morte, de anti-milagres, de derrotas, de fracassos, de pobreza, de miséria, de doença, de violência. Matamos moradores de rua nas noites quentes de nossas metrópoles, espancamos prostitutas indefesas até à morte. Estas são pessoas chamadas de “improdutivas”.  Gente que não oferece resultados sociais e econômicos.

 

Eduardo Galeano colheu esta frase irônica, colocada no portão de Auschwitz, campo de concentração nazista: “O trabalho liberta!” Por outro lado, numa igreja freqüentada pelo populacho, no centro da Cidade do México, estava o cartaz:“Amados paroquianos, cuidado com seus pertences...” Gandhi, enquanto residia na África do Sul, procurou uma igreja protestante, depois de uma noite inteira lendo os Evangelhos, e leu na porta: “Proibida a entrada de cães e negros...” Tanta indignidade imposta, esmagamento das pessoas, aviltamento da condição humana, requer uma atenção para com o convite de Cristo: “Venham a mim todos os que estão cansados e oprimidos, eu lhes darei alívio”.

 

Cada geração tem interrogado sobre Jesus Cristo de uma maneira peculiar, buscando entender onde Deus se revela no Evangelho. É verdade que os critérios esclarecem pouco e as discussões chegam a extremos.  Onde não há judaísmo nas comunidades primitivas, especialmente as que se orientavam por Mateus?  O texto, porém, apresenta-nos absolutos interessantes: nem o judaísmo oficial pensava assim, sobre um Deus carinhoso, misericordioso, terno. Nem os primeiros cristãos imaginaram Jesus como neste texto de louvor e ação de graças. Poucos se atreveram a colocar na boca de Jesus palavras como essas, audazes e dominantes: Venham a mim!  Sempre se articula com retoques pertinentes a experiência de Deus de uma maneira onde há distanciamento, no sentido de emoções externadas mais diretamente. Não é a toa que a palavra pater, pai na língua grega – e daí a expressão “pátrio poder” – se sobreponha ao aramaico, no uso cristão diário. Abbá tem um sentido doce, “paínho”, no jeito baiano de expressar o carinho filial. Aqui também ocorre o contrário do que a autoridade do nome sugere, a experiência humana de Jesus se harmoniza com o que homens e mulheres mais procuram: cuidado, ternura, solidariedade amorosa. Exatamente porque isso lhes é negado. Jesus Cristo, o homem, ama seus semelhantes como Deus, Pai de Misericórdia, que ama a todos os seus filhos, sem eleições preferenciais.

 

Ao modo judaico de evitar o nome de Deus, como na expressão Reino dos Céus, Mateus aponta o jeito do Deus da Bíblia de se dirigir aos que serão alvo da ternura e de cuidados inusitados: bem-aventuranças (Mt 11,25-30). Neste domingo, o evangelho indica um de seus mais formosos textos. Esbanja precisamente o mistério da graça, melhor traduzida e entendida como a gratuidade e a misericórdia de Deus (hesed). Lucas, de modo semelhante, introduz as mesmas expressões, demonstrando terem os evangelistas buscado as mesmas fontes (“Q”), com um acréscimo precioso. Quem fala de misericórdia é o Espírito Santo. Assim, no texto de hoje, à força e a radicalidade do texto de Romanos acrescentam-se elementos teológicos como aqueles que demonstram que Jesus compartilhou da mesa e da alegria de gente de reputação duvidosa, vítimas da homofobia, socialmente marginalizadas, religiosa e civilmente infratores das leis vigentes, usuárias irregulares do comércio, prostitutas, aleijados, prisioneiros de ideologias sociais e religiosas. Conviveu com estas pessoas e com elas foi confundido. Concretamente, os inimigos do evangelho de Jesus têm que admitir que seu comportamento não iguala o conceito que se atribui a “um homem de bem”, ou a uma pessoa religiosa segundo os padrões daquele e do nosso tempo.  A doçura de Jesus, como no comovente hino evangélico tradicional (Buscou-me com ternura/ Jesus o Salvador), incomoda.  Se quisermos ser verdadeiramente fiéis a Jesus, o Evangelho sugere que devemos ter a mesma atitude que ele teve para com os escorraçados deste mundo impiedoso e sem compaixão.

 

O que um budista indiano chama ahimsa um israelita bíblico, como Jesus, chama de rahamim. É a mesma atitude de compaixão, originalmente “não-machucar” o outro. Uma atitude que se sobrepõe à vontade de dominar o outro a qualquer custo, pisar no pescoço de alguém para passar à frente, entrar na realidade do outro para dominá-lo. O hebreu usa a palavra rahamim (“ter entranhas”, ter coração; o coração é sede de sentimentos, pensa o israelita), para identificar a compaixão de Deus pelo oprimido, pobre, aflito, despojado, sem-posses, sem-nada. Deus é como a mãe que vê seus filhos com extremo cuidado, acolhendo-os sempre com amorosa compaixão. O Deus da Bíblia ama menos que a mãe humana? Não. E não fica magoado por nossas fugas, nossas desobediências; não castiga nem pede obras reparadoras para doar sua graça, carinho que lhe é próprio. Ao contrário de nós, Deus não guarda rancor pelos improdutivos, e os que não consomem bens de qualquer ordem. Porque são excluídos do bem-estar geral, inclusive porque não podem pagar pelas bem-aventuranças do mundo do consumo. Como Deus poderia fazê-lo, se seus filhos passam fome, não têm o que os outros têm? Se são identificados como sem-teto, sem-terra, sem-nada? Místicos do século XIII, como Matilde de Magdenburgo, se exprimiam: Quando o sangue do meu coração escorreu para a terra, o céu se abriu vergado pela dor. É compaixão pelos cansados e oprimidos, certamente. Matilde entendeu como o coração de Deus tem compaixão pelo que sofre, o marginalizado, o excluído do mundo dos bem-postos, do qual somos parte.

 

O conhecimento da vontade e dos sentimentos de Deus não é tarefa intelectual que brote de um esforço de estudo nem da aquisição do conhecimento de estratégias para o sucesso e a prosperidade, de que se gloriam os sábios e entendidos. Deus vem aos humilhados e esmagados, em pura Graça. Quando a Bíblia fala desse assunto, os termos são inconfundíveis (hesed no AT; xáris no NT, “graça” ou “misericórdia”). Reformadores protestantes sustentaram a tese bíblica recebida (séc.XVI), também, dos Pais e Doutores da Igreja Antiga, da absoluta gratuidade de Deus para o perdão e a salvação do homem. Mais recentemente, Karl Barth conceituava o movimento de Deus em plena liberdade na direção ao homem, para o perdão e justificação: “É Deus que vem ao encontro do homem, e não o contrário”. Em todas as situações, porque o pecado, a indiferença, a ausência de compaixão, não deixa os homens e as mulheres, mesmo quando são encontrados e salvos por Deus. A força transformadora vem do amor libertador. Os pisoteados, humilhados, esmagados, constituem alvo prioritário desse amor. O Reino dos Céus, todos os céus, as bem-aventuranças, abre-se para os que são submetidos à dureza da vida, a situações de tristeza e dor. Aos que passam por toda fome e sede de justiça, diante das desigualdades e das opressões, disse Jesus: “Venham... eu lhes trago alívio”.

 

Aqui, Mateus aponta para um Deus maravilhosamente humano, paciente, solidário, cuidadoso e terno. Ao mesmo tempo. Estas são as possibilidades ofertadas por Jesus: “Venham a mim, vocês estão cansados; vocês são oprimidos... eu tenho o alívio que vocês procuram”. Pureza, coração limpo, misericórdia, compaixão, contrastam com racionalizações utilitaristas, crenças pragmáticas em resultados e propósitos, compensações intelectuais que admitem estados de pobreza endêmicos, injustiças de toda ordem, desde que com os outros. Claro. No meio das desigualdades cultivadas com esmero, aspectos risíveis do nosso tempo estão à mostra. Propomos a imitação dos computadores e das máquinas eletrônicas ultra-compactas, porque são “inteligentes” e econômicos. Nada mais prático que um computador..., dirá alguém. Não tem sentimentos. No entanto, o computador pode oferecer um número infindo de informações, diversões, pornografia, jogos, ou mensagens doces e estimulantes de auto-ajuda. Ao mesmo tempo. Mas não pode oferecer o ombro, pra você chorar suas mágoas; não pode lhe dar indignação por tanta injustiça existente, ou calor humano, quando chega a derrota; a frustração, o fracasso, o sofrimento de uma enfermidade terminal. Nem pode dar conforto quando uma pessoa querida nos abandona para viver com outra, ou quando o ente querido deixa esta vida.

 

O apanágio, a propriedade característica da vida simples, desarmada, sem segundas intenções, está no alívio das consciências solidárias no empenho e no cuidado, e não nos desafios para se superar os outros, pisoteando e enterrando-os até que saiam das vistas do mercado consumista, da religião ou outra coisa qualquer. Quem está disponível para aceitar o convite de Jesus, porque está aberto a toda ação divina sem manipulá-la em favor de seus próprios interesses, é aquele que se apresenta com um coração terno, manso, pacificador. Homens e mulheres não-violentos, não-gananciosos, e não como alguém em busca de sucesso e prosperidade a qualquer custo. Os que estão aliviados dos ódios das disputas, das competições, das lutas por supremacia e da auto suficiência, sabem o que significa aceitar a vida de fé e confiança no senhor Jesus Cristo. 

 

Não cabem aqui pseudotranscendências, afirmações metafísicas, doutrinárias, que exploram a incapacidade humana de pensar sobre o indizível. É necessário conferir a Deus plenitude duradoura.  Como encarnação de Deus na vida do pobre e necessitado, no mundo que sofre em razão das desigualdades, da ganância, da exclusão, do preconceito, da intolerância. O Evangelho nos recordará, sempre, um movimento nessa direção: “... eu sou pobre e infeliz, mas o Senhor cuida de mim!”, na mensagem do Salmo 40. De fato, o caminho espiritual é mais árduo, desaprendendo rigorosamente o que nos tem sido ensinado. Demolir a construção do que nos têm sido dito sobre redenção e salvação é um trabalho árduo, com nossas mentes, na busca da essencialidade de Deus. E da essência da vida que só Deus parece querer sustentar.

 

Sim, temos aqui a oportunidade de domesticação dos demônios que habitam em nós, fazendo-nos negar o cuidado e a ternura de Deus que devem ser imitados. Nosso narcisimo social canaliza energias poderosas (dynamis). É preciso invertê-las, convertê-las (metanóia) para que nos cresça  r sustentara   parte.  sociedade de consumo.  para passar o-ajuda.os: a compreensão do amor solidário. A interiorização recomendada pelo Evangelho trata de absolutos éticos que escapam, fogem, distanciam-se, da inteligência prática. Induz à sensibilidade para com a realidade dos esmagados e triturados pelos sistemas de pensar desse mundo. Este é o mundo que ensina a ganância: ter-sem-ser e aparecer-a-qualquer-custo; que se ocupem espaços ambicionados no universo da superficialidade, valendo pisotear valores da solidariedade e da misericórdia; relegar ou secundarizar o serviço ao outro e à outra. Na verdade,  as “revelações” de Deus aos pequenos e mansos são um desafio à oração dos bem-postos, dos sábios e detentores do conhecimento sobre as melhores estratégias para “se dar bem na vida”. A práxis de Jesus nos remete ao mundo prosaico dos simples, mansos, humildes deste mundo, a quem faltam recursos para a sobrevivência, o mínimo, enquanto expostos à ganância do mundo que privilegia quem já é privilegiado.

 

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