13o. Domingo do Tempo Comum

 

            Ano "A"       


LECIONÁRIO LITÚRGICO

    Gênesis 22,1-14 – Holocaustos humanos abomináveis, na religião

Salmo  13 – Senhor, resta-me confiar somente na tua salvação

Romanos 6,12-23– Oferecei-vos a Deus como ressurretos, não

como assalariados do pecado

                   Mateus 10, (37ss)40-42  Quem não toma a sua cruz, não é digno de mim

 


MISTURA DE ILUSIONISMO E HOLOCAUSTOS HUMANOS

Triunfar na vida parece ser o desejo de todo ser humano. Alcançar poder, fama, comodidade, riqueza, é a meta da maioria das pessoas. Igrejas também não escapam desse desejo de “triunfar” em missões semelhantes às citadas. Mas, Jesus nos avisa: “Aquele que quer ganhar a sua vida vai perdê-la e aquele que perde a sua vida por amor de mim, a encontrará”. Como queremos vencer na vida, ao estilo de Jesus ou ao estilo do paganismo trazido para dentro das comunidades cristãs, protestantes, católicas, evangélicas, neopentecostais? Temos consciência de que são dois estilos irreconciliáveis? Um “paradoxo” célebre no Evangelho neotestamentário. Paradoxo é uma “contradição aparente”, a expressão parece encerrar uma flagrante contradição, mas não é realmente uma contradição. Ao contrário, trata-se de uma verdade profunda: cristãos nominais comportam-se sob as regras do mundo não cristão, tantas e tantas vezes que se esquecem do que realmente são.

Nesse embate, o problema principal é falta de justiça, de dignidade, de bem-estar social, que cada um quer resolver individualmente, ignorando os outros. Torce-se abertamente pelo diabo e seus demônios. Porque, se ele não existe, não há como encher igrejas, arrecadar ofertas, sustentar uma legião de padres, pastores e pregadores que vivem dessa crença. Sem ele não haveriam altos salários pastorais, mansões de seis milhões para os chefes religiosos, condomínios e automóveis de alto luxo, e as cidades preferidas pelos evangélicos ricos  empobreceriam. E nem haveria estímulo para os de baixo, as igrejas pobres e a turma do “gargarejo”! Meu mecânico, pentecostal da velha tradição, escandaliza-se com o colega que lhe propôs a venda de uma igreja, que arrecada razoavelmente e oferece sustentação garantida a quem quiser. Outro abre um condomínio de kitnets para casais e famílias, as quais passa a controlar, quanto à vida econômica, social e sexual. Só pode quando ele deixa... sua mulher o abandonou, por causa disso.  Mas ele diz que suporta o sacrifício, em nome de Jesus... Deu na revista evangélica Comunhão, enquanto o entrevistador se encantava com o pastor empreendedor.

As exigências da cruz mudariam para cada geração de fiéis. Hoje, estas exigências parecem não fazer sentido. Na época de Jesus existia a ameaça iminente da morte ignominiosa, através da cruz, da espada ou do apedrejamento. A recusa dos preceitos da religião da magia e do mercado se evidencia, através de Simão, o mágico (Atos 8,9-13: Simão praticava prestidigitação religiosa!, fazia milagres...). Mercado pressupõe vendedor e comprador. As multidões de hoje freqüentam as novas e borbulhantes igrejas entrando na porta de uma, saindo pelos fundos e buscando sucessivamente novas portas, sem fixar-se em nenhuma. Da minha varanda, contemplo, no outro lado da avenida, uma catedral neo-pentecostal, e um hipermercado Wall-Mart. O Carrefour está a dois quarteirões. Templos do consumo... Inevitavelmente chamam atenção pela movimentação de pessoas. Fazem intensa propaganda de si mesmos. Trata-se de uma migração constante e interminável, de um para outro mercado. Sinal que deveria ser levado em conta, quando os da primeira fila se invejam dos números neo-evangélicos. No Censo 2000 do IBGE mais de dois milhões de pessoas disseram estar em uma dessas igrejas neo-pentencostal. Foi dito também, fonte duvidosa, que seis milhões haviam passado por lá.

Como admitir que uma igreja local proponha ser um shoping center da graças e de bem-aventuranças? É disso que as multidões precisam? Jesus entrou no mercado das indulgências, e virou tudo de pernas para o ar. O que pensariam os primeiros cristãos, ouvintes do Evangelho, a respeito das conferências milionárias, convenções, seminários sobre “batalhas espirituais”, “ministérios de cura e milagres”, “libertação e cura interior”, “quebra de maldições”, “restauração da alma e das finanças”, “renascimento com libertação”, “dietas espirituais e neo-avivalismo urgente”? A fé apostólica sobreviveria sem se pregar sobre satanás nos calcanhares da multidão (também chamado de Lúcifer, o cão, o capeta, o capiroto, o cramulhão, o pé-de-bode, o sete-peles, etc.)? E, agora, o culto gospel: o que pensariam dos shows onde se cobram ingressos para oferecer aquilo que deveria ser graça e bem-aventurança? Será que desejariam, no lugar de pastores de ovelhas, gerentes de marketing! Seriam escravos da “Estatística”, essa deusa pagã das novas igrejas cristãs evangélicas? Seriam olhos que enxergam números e não vidas cristãs  dedicadas à fé apostólica. Vendedores de milagres e igrejas, e os novos vendilhões no Templo, mercadores da fé, estão com a palavra! E os compradores também...

Para Jesus “tomar a cruz” não se refere a algo místico, ou aos sofrimentos e penas que a vida impõe para todos. Ou às mortificações que alguém possa infligir-se a si mesmo. A cruz que se deve estar disposto a “tomar”, segundo Jesus, para ser seu discípulo, é outra. É aquela que se carrega pelo simples fato de assumir-se a autêntica vida cristã, testemunhando o Cristo de Deus na dura realidade de  nossos dias. Em qualquer circunstância, dentro ou fora da igreja. Ou seja, a vida que nos leva a “viver e lutar pela Causa de Jesus”, que nos obriga a aceitar a perseguição imposta por aqueles que não desejam o triunfo da Causa de Jesus (que não é outra coisa senão o amor, a justiça, a liberdade, a fraternidade, solidariedade; a causa dirigida aos oprimidos, aos despojados e excluídos, onde quer que estejam). O que é e o que não é “tomar a cruz”, então? O que é, e o que não é, a “cruz” da qual se refere Jesus? Ainda achamos que os evangelhos foram escritos para evangelizar os “de fora”, gentílicos, helênicos, ou já entendemos que os evangelistas se dirigem aos cristãos e suas próprias comunidades? Por que não vemos os exemplos de quem não comunga conosco, do ponto de vista ideológico-religioso, ou politicamente, ou teologicamente? Por que não indagamos sobre o papel das multidões que ouviam Jesus (oxlos), e logo o abandonavam, indispostas às exigências da cruz? Jesus exerceu seu ministério desde a Galiléia até a Judéia, tão somente.

Será que estamos enganados, e novos conversionistas propositistas certos? Os cristãos dos primeiros séculos não anunciavam teologias salvacionistas, avivalistas, nem curas individuais, nem ritos de santificação e purificação, ou muito me engano, se não aprendi a ler a Bíblia. Mas os cristãos “existiam” em toda parte. Ninguém se expressaria: “precisamos encher os nossos igrejas”, (os primeiros templos apareceriam três séculos depois), como se insiste tanto, hoje em dia, de olho no crescimento da membresia, na arrecadação de ofertas e dízimos. Enquanto anunciavam a universalização da obra salvadora, respeitando-se diferenças culturais dos povos e raças, curavam os enfermos, realizavam a diaconia da fé (Tiago 2,25: “como o corpo sem o sopro da vida é morto, assim também acontece com a fé sem as obras”). Cultivavam o símbolo (symbolo = sinal que une, no grego) do batismo como rito de iniciação e compromisso (batismós), e da Ceia do Senhor, comunitária (eucharistia).

As comunidades cristãs desde o início tiveram clara consciência da magnitude da tarefa à qual teriam que enfrentar, para pregar o que seu Deus faria. A experiência do ressuscitado levou-as rapidamente a descobrir que deviam superar os limites das comunidades palestinas e lançar-se na missão universal, abrangente, católica e apostólica (catholikós); que deveriam dar prioridade à construção das comunidades em torno do Reino e sua justiça  e deixar de lado a tentação de fazer parte do comércio religioso, interno ou externo; deveriam dar atenção em primeiro lugar aos grupos excluídos e marginalizados, e deixar de lado os centros de poder.

Deveriam, finalmente, retomar às opções fundamentais de Jesus, torná-las vivas, presentes, visíveis, em todos os rincões do império romano. Mateus, quando nos diz que quem ama seus parentes mais que a Jesus não é digno dele, revela um problema da comunidade conformada ao seu tempo e cultura. Referir-se-ia às comunidades que causavam inveja aos discípulos de sua comunidade. Quem era de origem judeu-cristã, tinha uma estima desmedida pelos de seu próprio sangue, raça e cultura. Um afeto que facilmente se convertia num apego obtuso, corporativista e sem sentido. O cristão que não for capaz de transcender os estreitos limites da família, da raça, da cultura ou da nação, ou religião, não está habilitado para experimentar e dar o amor solidário que nos propõe o evangelho. E, por esta mesma razão, o amor a Jesus não se reduz à pura dimensão íntima, individual ou particular. Seu amor aponta para a humanidade inteira e o mundo criado; homens, mulheres, raças, povos, ambiente, natureza, e tudo que se deseja para um mundo novo.

Amar a Jesus é amar o que ele amou, seu projeto, sua causa, seu ideal para o reinado de Deus. Amar a Jesus também é amar as pessoas que ele amou, e suas causas por direitos sociais, cidadania, justiça ecológica e dignidade. Pobres, marginalizados, deficientes, excluídos, enfermos, abatidos, endemoninhados, estrangeiros, sexualmente oprimidos, mulheres, prostitutas, coxos, cegos, são preferenciais ao Reino de Deus. O amor de Jesus é tão grande que se estende, inclusive, àqueles que se declararam seus inimigos. Um amor que hoje nos pode parecer fora de órbita, não natural, extremo, impossível, mas que, para alegria e espanto de todos nós, é o amor com o qual Deus nos ama. Também somos parte do grupo descrito acima. Convidados da mesma maneira à conversão e salvação da intolerância, do preconceito, da indiferença para com os que Jesus  ama. Um amor sem o qual não podemos ser chamados  discípulos de Jesus, como dirá o evangelista S.Mateus.

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Texto: Derval Dasilio - www.derv.wordpress.com

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