12o. Domingo do Tempo Comum

 

            Ano "A"  

 

        


LECIONÁRIO LITÚRGICO
 

Gênesis 21,8-21/Jeremias 20, 10-13 - Ele salvou com suas mãos a vida do pobre.

Salmo 116,1-2;12-9 –  Fizeram-me experimentar o inferno, aqui mesmo...

Romanos 5, 12-15 –  A graça ultrapassou e eliminou  o pecado

Mateus 10,26-33 – Temei os que matam a alma...

 


 

ELES MATAM A ALMA DOS CRENTES

 

Os discípulos de Mateus ouviram que não há paz sem que a justiça de Deus seja reconhecida como o bem maior. A Justiça do Reino é necessariamente anti-violenta. Porque a violência é sempre violência, seja física, verbal, ideológica. Sutil ou descarada. No ambiente religioso se observa o fenômeno acompanhado da contemporização própria das defesas corporativas. O “evangelho” ideológico de uma religião, e até mesmo dentro dela, como observamos entre cristãos católicos, protestantes, evangelicais, representa uma violência ideológica interminável. Violência gera violência, diz-se seguidamente.

   

    Até os violentos se expressam assim, através ameaça de represália ou retaliação. O mundo do sagrado poderia ser um antídoto, uma solução (A.Barahona Plaza). Não é! O mundo religioso é violento por natureza, como disse R.Girard (O sagrado e a violência). Enquanto "hieros" e "isirah" (grego: sagrado; védico: força vital) apontam a atuação, concomitantemente,  de duas forças conjugadas: violência-constitutiva e violência-força. Estamos sempre sujeitos à imitação (mimesis) de comportamentos onde transparece a violência contra os demais. Aqui, justifica-se a violência de todos contra todos. A intolerância religiosa, o legalismo doutrinário, via de regra, se expressa com violência.

   

    De muitas maneiras. Justificando uma pregação extremamente contaminada por compreensões de cultura, de vida e de tradições que praticamente impõem-se nas ideologias de cultura religiosa evangélica: o racismo justificado biblicamente; a eficiência do “diabo”, como uma força sedutora mais forte que tudo, voltada para o mal, é mais influente que a força do bem que vem de Deus; o “temor” a Deus é sempre mal traduzido, na linguagem do medo, que permaneceria “condicionando permanentemente à conversão religiosa”. Sem o diabo não há conversão possível, informa essa ideologia... Falhas humanas, conceitos de castigo implícito, envolvendo o diabo e o inferno, apresentam-se com desenvoltura permanente, sem os quais a conversão e vida religiosa não fazem sentido. O “deus” repressor fundamentalista e o "diabo" liberal, dualisticamente, encontram-se em tensão permanente. O maniqueísmo histórico se consagra, diminuindo a grandeza e o senhorio de Jesus Cristo (esta, de fato, uma doutrina das mais genuínas do cristianismo...). O diabo e seus demônios são somente representantes da religiosidade supersticiosa da Idade Média? Observe o pietismo fundamentalista e responda.

   

    O crente é impedido de ver a salvação, desse modo, pela misericórdia incondicional de Deus, por causa da ótica que obriga considerar o inferno e o poder do diabo, em primeiro lugar. A vida do evangélico desconhecerá a Graça, a misericórdia, a compaixão de Deus, o Pai amoroso apresentado por Jesus Cristo no Evangelho, em favor do legalismo religioso, fã absoluto do diabo, a quem evoca freqüentemente, por dependência espiritual. Desse jeito, deficientes físicos seriam vistos como portadores visíveis do pecado dos pais, principalmente os “pecados sexuais”; doenças congênitas não teriam tratamento corretivo, porque “Deus fez sãos e doentes igualmente, naturalmente, como parte de seus desígnios”, contra os quais não se pode lutar; questões raciais estariam fora da preocupação com o semelhante, que permanecerá “diferente”, enquanto permanecem lembradas no âmbito das maldições bíblicas; direitos humanos seriam restritos, na sugestão de que só os crentes alcançam o favor libertador de Deus pela fé abstrata na salvação (abstrata), sem compromisso com os restantes, e pela conversão ao legalismo religioso, antes que à vida de fé comprometida; cristãos não devem cuidar de problemas sociais concretos, pois o dever cristão é, antes de tudo, “estar atento à vida espiritual abstrata” (Rubem Alves: “Mas, o que é abstrato não é nada...”). Tudo isso para a manutenção da salvação a ser alcançada, ao se aparentar a fé como conduta moral externa, é preciso crer no diabo antes de crer em Deus. Com a palavra o fundamentalismo evangélico.

 

    Na concepção ideológico da perdição humana, o diabo reina. Os poderes do mal, definitivamente, reino do diabo, dominarão a terra dos homens, até que este mundo seja julgado, enquanto os crentes, os pobres e humildes, evidentemente, se obrigam a aguardar as bem-aventuranças no além, num “céu como lugar abstrato”. Nunca se prega sobre o mundo bem-aventurado e a iniqüidade dos ricos -- enquanto o diabo leva todas as culpas --, bem-aventurados aqui na terra, e a indiferença dos bem-postos, em atos de exploração econômica, e opressão aos pequenos e sem cidadania ("...disseram a vocês para fazerem o que eles não fazem, pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros das pessoas (anthrópon);eles, porém, nem com o dedo querem movê-los" - Mateus 23,3-4). Porque fatos concretos da moralidade se aplicam sempre sobre os mais fracos, e a justiça de Deus é desprezível, aos seus olhos.

   

    Paulo denunciará precisamente a incapacidade dos mecanismos habituais da religião do livro e da letra, legalista, para oferecer à comunidade uma autêntica experiência de fraternidade, esperança e comunhão. Não escapam de seus apontamentos éticos, contudo, a idolatria consumista e freqüentadores de cultos estranhos, patrões escravistas, sonegadores de impostos e de direitos trabalhistas, corruptos em todos os níveis, corrompidos, gananciosos, avarentos, banqueiros, agiotas, injuriosos, mentirosos, impudicos, caluniadores, violentos intra-familiares, agressores de mulheres e crianças, e outros mais. Sabe que estes contam com grandes chances de subir eclesiasticamente, podem até candidatar-se ao oficialato nas igrejas, sem problema. Se já não estiverem no comando. Por isso aponta pecados concretos e dá nome aos pecadores. Eis um retrato que parece não mudar nunca.

 

    Na ética paulina, que exalta essencialmente a liberdade do cristão, especialmente enquanto fala da Graça, que é a misericórdia de Deus, a justiça que nos une ao Deus da vida é um dom para toda a comunidade. A autêntica religião é aquela que nos conduz como irmãos e irmãs até Deus, mediante a compaixão, a misericórdia, o cuidado e a solidariedade. Só a Graça nos transforma em novas criaturas. A Graça, porém, funciona contra a ideologia da violência. É demoníaco manter a comunidade sob o controle legalista e fundamentalista, sustentadora da moral hipócrita.

--------

Texto: Derval Dasilio - www.derv.wordpress.com

Site Pão Quente Diário:   www.paoquentediario.com.br