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11o. Domingo do Tempo Comum Ano "A" LECIONÁRIO
LITÚRGICO
Gênesis 18,1-15 –
Sereis para mim um reinado de sacerdotes e uma nação
santa. Salmo
116,1-2;12-19 – Cumprirei os meus votos ao
Senhor Romanos 5,1-8 –
Fomos reconciliados pela morte do Filho, seremos salvos por sua
vida. Mateus 9,35-10 e 10,8 – Jesus chamou seus doze discípulos e os enviou. RESPONSABILIDADE COM A JUSTIÇA,
UM SACERDÓCIO PARA TODOS OS
POVOS Na antiguidade cristã, ícones
da Igreja Bizantina já apontavam Abraão hospedando a Trindade em sua casa
(Gn 18,1-15). No multiteísta mundo babilônico ( O estágio
proto-israelita refletia a não compactualização com os santuários
cananitas e as concepções cultuais do momento dos pais patriarcas,
precursores de Israel. Sacerdotes e sacerdotisas pagãos são identificados
com deuses e deusas dos santuários da terra cananéia. Divindades sem ética
corrompem a humanidade, informa o relato bíblico, na direção da
desumanização social (Fonte “J”). Sobre Abraão, informa-se que ele fundou
um santuário, um altar, no bosque de Mamre, perto de Hebrom (Gn
13,18;18,1-16 e 35-37). É preciso observar que o Primeiro Testamento,
Bíblia Hebraica, ainda deixa transparecer esse processo de identificação
dos “elim” (=deuses dos santuários da terra
cananéia), fato que afasta possibilidades de aproximação com “Baal” ou os
“Baalim”, tardias, distantes quanto à formação do estado político
monárquico de Israel, séculos depois. Deus, como “Criador do céu e da
terra” (“El”), que é ao mesmo tempo “Deus meu” e “Deus de nossos pais”,
tem afinidades com as concepções mais remotas de Israel, e, por
“mediação”, passa pelos estágios históricos da religião de Israel e chega
aos cristãos modernos por transmissão da fé apostólica (cf.:
A.H.J.Gunneweg: Teologia Bíblica do Antigo Testamento). Esse é o ponto que
precisamos saber, sobre o “sacerdócio universal de todos os crentes” desde
a tradição abraâmica. Abraão saúda com
respeito aquele que parece chefiar o pequeno grupo de caminhantes. Mas os três começam a falar, depois
que, humildemente, lhes é oferecida hospitalidade (Gn 18,1-15). Começa a
descerrar o véu desse mistério. Essa presença trinitária é de um
encantamento indescritível: uma epifania trinitária! Deus apareceu e está
no meio dos homens. A acolhida de Abraão resultará numa promessa inicial.
E Abraão ficará a sós com o Senhor. E dessa intimidade extraordinária, a
revelação divina se faz: a idosa de ventre murcho com o velho de baixa
libido, sem ereção, de fertilidade esvaída (cf.:BLH – “...sem desejo sexual”), terá
descendentes! E o desdobramento será extraordinário: constituirei uma
nação santa, distinta das restantes, que será um povo sacerdotal para o
mundo inteiro:(...)“em ti serão
abençoados todos os povos da terra”(Gn 18,18). Não há fundamento
para um exclusivismo, ou predestinação particular, na Bíblia inteira.
A eleição envolve o povo inteiro: um reino sacerdotal, como identificado
em 1Pedro (2,9), o Reino de Deus. Não um modelo de santificação, de pureza
cultual, mas um exemplo de serviço entre as
nações. Mateus 9,35-10;8 –
Como Moisés, com o povo no deserto, Jesus teve também muitas dificuldades
em sua relação com aos doze. O povo de Israel se esqueceu do caminho, o
quanto havia se comprometido com Deus, desde Abraão, reclamando com
freqüência da “falta de cebolas”, sonhando com as “panelas de carne do
Egito”, e protestando contra seu guia por tê-los conduzido ao deserto, e
que eles consideravam um lugar para morrer, e não de passagem para a
“terra prometida”. Da utopia para a realidade, exalta o evangelista.
Enquanto Jesus estava com os discípulos, uma vez ou outra eles
manifestaram o ‘desejo de poder’ e de privilégios, negaram-no até o ponto
de abandonarem seu Mestre à própria sorte, que foi para a cruz sozinho (Êx
19, 2-6a; Mt 26,72-74). Jesus escolhe doze
discípulos, aos quais o evangelista chama de “apóstolos”, isto é, enviados
("missionados", como diria João Dias de Araújo). Este grupo representa o
novo Israel (cf.: doze tribos, anfictionia e juízes). O grupo é bastante
heterogêneo. O primeiro do grupo é Simão, que aparece citado
como um homem fraco, temperamental, instável. É Pedro o líder do
grupo(Simon Pétrus = ‘aquele que escuta a Deus’, em
grego bíblico, koinê;
provavelmente "pétra" se compararia a pedregulho, brita, e não à
pedra de fundamento de uma construção,"lithos"). Mateus, no
entanto, refere-se à “pedra angular” (líthon) do alicerce de uma
construção, sem incluir Pedro, mas referindo-se ao "laós" (povo eleito). Aqui existe uma alusão à
obstinação de um ideal messiânico, contrário ao de Jesus. O texto denuncia
o mal-entendido, reafirmado na Primeira Carta de Pedro (cf.:Mt
21,42-46; 1Pd 2,9). É impossível separar o sacerdócio de Pedro ao
sacerdócio de todos os cristãos. Ao longo da
narrativa, Símon Pétrus chegar
a negar Jesus, numa evidente fraqueza de fé; na construção da fé, no Reino
de Deus, os fracos e despoderados, contudo, têm um papel preponderante na
construção da comunidade fiel. Nas cartas atribuídas a Pedro se reafirmará
o serviço ao mundo através do “sacerdócio universal de todos os crentes”
(1Pd 2,5: “Vocês servirão como
sacerdotes consagrados a Deus”). A Carta aos Hebreus também afirmará,
com fins universais: “De fato,
Jesus foi encarregado de um serviço sacerdotal bem superior ao dos
‘sacerdotes comuns’ (sumo sacerdócio do Reino de Deus). E o acordo que
conseguiu entre Deus e o seu povo (laós) é também superior, pois se baseia
em promessas de coisas superiores”. (Hb 8,6). Por isso se dirá do povo
antigo, do Primeiro Testamento: “A
pedra angular (que é o povo eleito desde Abraão) rejeitada pelos construtores, esta
veio a ser a mais importante de todas” (Sl 118:22). O povo de Deus (laós tou Theou) é mais importante
que seus construtores e condutores. A preferência
clara, destacada nos evangelhos, são os oprimidos, pobres e despoderados.
Servir também é concessão divina de dons e ministérios. A ação da misericórdia, da
compaixão, inclui essa dimensão da Graça. Tornar homens e mulheres dignos,
alcançados pela salvação e libertação das misérias, das opressões, das
exclusões, das desgraças e do abandono, é parte essencial da missão de
Deus que é entregue ao povo de Deus, sacerdotalmente. Compreender e pôr em
prática essa mensagem de amor comprometido com as causas do homem, de
renúncia de privilégios eclesiásticos; renúncia ao propositismo
pragmático, ao redor do sucesso financeiro e do poder de compra e de venda
da Graça; é entender a doutrina apostólica de serviço até a
morte.
Enquanto isso o
Reino de Deus dava lugar ao eclesiasticismo do qual não conseguimos nos
livrar (Chenu:“Jesus Cristo inaugura o seu Reino, mas o que veio em seu
lugar foi a Igreja...”). Nem mesmo a Reforma Protestante livrou-se desse
assunto. O tipo de evangelismo resultou no que se observa hoje, desde as
igrejas midiáticas que ofereceram "know-how" ao bem-sucedido
neopentecostalismo anárquico desse momento. Batalhas espirituais,
ministérios de cura e milagres, libertação e cura interior, quebra de
maldições, restauração da alma e das finanças, dietas espirituais,
neo-avivalismo urgente, “evangelho” da prosperidade, renascimento com
libertação, são anti-teologias das mais apreciadas em nossos dias. E nunca
a Igreja se afastou tanto das propostas expostas neste texto do
evangelista Mateus (Mt 9,35-10 e 10,8): Jesus enviou apóstolos para a
salvação do mundo, e não para o exercício de ministérios pragmáticos,
interesseiros, para os fins da consolidação da fé egoísta que vigora hoje,
restaurada do pelagianismo medieval: salva-te a ti
mesmo... No Evangelho, Jesus envia seus
apóstolos com algumas instruções bem precisas: “Proclamem que o Reino dos
Céus (Reino de Deus) está próximo. Curem os enfermos, ressuscitem os
mortos, curem os leprosos, expulsem os demônios. Vocês receberam de graça,
de graça dêem”. Perguntamo-nos: para que Jesus nos envia, neste mundo,
senão para demonstrar o reino da misercórdia (xáris, hesed), do cuidado e da
compaixão de Deus? Jesus se compadeceu, por que “viu que eles estavam cansados e
abatidos como ovelhas sem pastor...”. Se olhasse para os homens e as
mulheres, a humanidade de hoje, e encontrasse a multidão de 5 bilhões
de pessoas carentes de dignidade, de direitos fundamentais, de direito á
vida em plenitude, gozadas por possíveis bem-postos que completam o
total de 6,5 bilhões de habitantes do planeta Terra, Jesus as veria
como “ovelhas sem pastor”, necessitadas do cuidado sacerdotal dos
cristãos? Entregaria a missão sacerdotal de Deus na direção da salvação do
mundo inteiro, ou será que daria atenção somente aos “convertidos”, aos
evangelicais, aos conservadores, aos ortodoxos; aos que se dizem
seguidores da “sã doutrina” e com ela fazem proselitismo exclusivista
setorial? Daria atenção somente aos
“predestinados” (o determinismo teológico à “perdição” ou “salvação”,
antes que filosófico – fatalismo, conformismo, irreversibilidade do mal
– alimenta agostinistas,
pelagianos, ou calvinistas particularistas, que ainda insistem em
soteriologias abstratas, anti-evangélicas, anti-bíblicas, malucas)? Felizmente, Karl
Barth contemporizou, enfim, através de seu conceito sobre “dupla
predestinação” para o gozo da Graça: "... a Graça é a gratuidade de Deus,
ato seu, obra sua, vontade sua e reinado seu": "Nenhuma condenação há para os que
estão
A certeza da eleição sacerdotal dos cristãos não deve ser confundida com falsa segurança. A eleição ao sacerdócio cristão precisa ser sempre de novo assegurada (1Pd 2,11). A fé em prática denuncia o pertencimento, pois quem pertence a Cristo, está protegido do julgamento e da condenação (Rm 8,1). Porém, esta discussão pode não ser teologicamente bíblica, mas sim doutrinal. Pertence ao âmbito do inútil e dos argumentos inócuos da ortodoxia iluminista. Pertencem ao âmbito das especulações mediavalistas e escolásticos que continuam atormentando os cristãos com a perdição e o inferno, mas somente como destino das massas oprimidas... Nem precisava tanto, bilhões de homens e mulheres experimentam o inferno da desigualdade, entre os que têm de sobra, e jogam alimentos no lixo, e os sem-nada que mendigam um mínimo de pão, diária e concretamente. Estes nem têm como preocupar-se com o inferno doutrinário, astral, existencial, metafísico, luxo reservado aos bem-postos. Uns lutando dolorosamente pela sobrevivência, outros preocupados em consumir ou acumular riquezas, bens sociais e culturais, à exautão... Tudo tem preço, no mercado da fé. Site Pão Quente Diário:
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