11o. Domingo do Tempo Comum

 

            Ano "A"       

     

LECIONÁRIO LITÚRGICO

Gênesis 18,1-15 – Sereis para mim um reinado de sacerdotes e uma nação santa.

Salmo 116,1-2;12-19 –  Cumprirei os meus votos ao Senhor

Romanos 5,1-8 – Fomos reconciliados pela morte do Filho, seremos salvos por sua vida.

Mateus 9,35-10 e 10,8 – Jesus chamou seus doze discípulos e os enviou. 


RESPONSABILIDADE COM A JUSTIÇA, UM SACERDÓCIO PARA TODOS OS POVOS

 

Na antiguidade cristã, ícones da Igreja Bizantina já apontavam Abraão hospedando a Trindade em sua casa (Gn 18,1-15). No multiteísta mundo babilônico (2000 a.C.?), e depois cananita (1000 A.C.?), cenário introdutório do mundo bíblico, deuses circulavam pelo mundo em figuras humanas. Para quê? Para pôr à prova e avaliar a hospitalidade dos mortais (sabe-se que, em qualquer lugar do mundo, em todas as épocas, a ethica começará com a cordialidade, e se estenderá à cidadania e respeito aos direitos fundamentais do homem e da mulher). Há uma intenção semelhante àquela que envolveu Noé com o Dilúvio: uma denúncia grave sobre Sodoma e Gomorra (o “caso Noé”, anterior, no Gênesis, difere muito pouco da situação narrada sobre este fato, a partir dos mitos babilônicos e suas divindades, as quais se comportam muito mal; deuses e deusas comportam-se como os humanos e vice-versa; o paganismo desassocia a solidariedade ética na relação entre seres divinos e seres humanos, o mau exemplo reflete-se na humanidade, e a sociedade por inteiro; deuses e homens não se julgam responsáveis pela sociedade humana; o Deus bíblico, porém, castiga a humanidade culpada com o Dilúvio, um cataclismo social e estrutural ocorre, enquanto a mesma sociedade evoca direitos quanto a uma falsa liberdade, sem respeito e sem cuidado com seus semelhantes, observada através da desumanização crescente entre os homens; Sodoma e Gomorra correspondem ao mundo corrompido do tempo de Noé. Um mundo que não merece sobrevivência [cf.: “Um causo bíblico: Noé, a tromba d’água e a irresponsabilidade” – Derval Dasilio].

 

O estágio proto-israelita refletia a não compactualização com os santuários cananitas e as concepções cultuais do momento dos pais patriarcas, precursores de Israel. Sacerdotes e sacerdotisas pagãos são identificados com deuses e deusas dos santuários da terra cananéia. Divindades sem ética corrompem a humanidade, informa o relato bíblico, na direção da desumanização social (Fonte “J”). Sobre Abraão, informa-se que ele fundou um santuário, um altar, no bosque de Mamre, perto de Hebrom (Gn 13,18;18,1-16 e 35-37). É preciso observar que o Primeiro Testamento, Bíblia Hebraica, ainda deixa transparecer esse processo de identificação dos “elim (=deuses dos santuários da terra cananéia), fato que afasta possibilidades de aproximação com “Baal” ou os “Baalim”, tardias, distantes quanto à formação do estado político monárquico de Israel, séculos depois. Deus, como “Criador do céu e da terra” (“El”), que é ao mesmo tempo “Deus meu” e “Deus de nossos pais”, tem afinidades com as concepções mais remotas de Israel, e, por “mediação”, passa pelos estágios históricos da religião de Israel e chega aos cristãos modernos por transmissão da fé apostólica (cf.: A.H.J.Gunneweg: Teologia Bíblica do Antigo Testamento). Esse é o ponto que precisamos saber, sobre o “sacerdócio universal de todos os crentes” desde a tradição abraâmica.

 

Abraão saúda com respeito aquele que parece chefiar o pequeno grupo de caminhantes.  Mas os três começam a falar, depois que, humildemente, lhes é oferecida hospitalidade (Gn 18,1-15). Começa a descerrar o véu desse mistério. Essa presença trinitária é de um encantamento indescritível: uma epifania trinitária! Deus apareceu e está no meio dos homens. A acolhida de Abraão resultará numa promessa inicial. E Abraão ficará a sós com o Senhor. E dessa intimidade extraordinária, a revelação divina se faz: a idosa de ventre murcho com o velho de baixa libido, sem ereção, de fertilidade esvaída (cf.:BLH – “...sem desejo sexual”), terá descendentes! E o desdobramento será extraordinário: constituirei uma nação santa, distinta das restantes, que será um povo sacerdotal para o mundo inteiro:(...)“em ti serão abençoados todos os povos da terra”(Gn 18,18). Não há fundamento para um exclusivismo, ou predestinação particular, na Bíblia inteira. A eleição envolve o povo inteiro: um reino sacerdotal, como identificado em 1Pedro (2,9), o Reino de Deus. Não um modelo de santificação, de pureza cultual, mas um exemplo de serviço entre as nações.

 

Mateus 9,35-10;8 – Como Moisés, com o povo no deserto, Jesus teve também muitas dificuldades em sua relação com aos doze. O povo de Israel se esqueceu do caminho, o quanto havia se comprometido com Deus, desde Abraão, reclamando com freqüência da “falta de cebolas”, sonhando com as “panelas de carne do Egito”, e protestando contra seu guia por tê-los conduzido ao deserto, e que eles consideravam um lugar para morrer, e não de passagem para a “terra prometida”. Da utopia para a realidade, exalta o evangelista. Enquanto Jesus estava com os discípulos, uma vez ou outra eles manifestaram o ‘desejo de poder’ e de privilégios, negaram-no até o ponto de abandonarem seu Mestre à própria sorte, que foi para a cruz sozinho (Êx 19, 2-6a; Mt 26,72-74).

 

Jesus escolhe doze discípulos, aos quais o evangelista chama de “apóstolos”, isto é, enviados ("missionados", como diria João Dias de Araújo). Este grupo representa o novo Israel (cf.: doze tribos, anfictionia e juízes). O grupo é bastante heterogêneo. O primeiro do grupo é Simão, que aparece citado como um homem fraco, temperamental, instável. É Pedro o líder do grupo(Simon Pétrus = ‘aquele que escuta a Deus’, em grego bíblico, koinê; provavelmente "pétra" se compararia a pedregulho, brita, e não à pedra de fundamento de uma construção,"lithos"). Mateus, no entanto, refere-se à “pedra angular” (líthon) do alicerce de uma construção, sem incluir Pedro, mas referindo-se ao "laós" (povo eleito). Aqui existe uma alusão à obstinação de um ideal messiânico, contrário ao de Jesus. O texto denuncia o mal-entendido, reafirmado na Primeira Carta de Pedro (cf.:Mt 21,42-46; 1Pd 2,9). É impossível separar o sacerdócio de Pedro ao sacerdócio de todos os cristãos.

 

Ao longo da narrativa, Símon Pétrus chegar a negar Jesus, numa evidente fraqueza de fé; na construção da fé, no Reino de Deus, os fracos e despoderados, contudo, têm um papel preponderante na construção da comunidade fiel. Nas cartas atribuídas a Pedro se reafirmará o serviço ao mundo através do “sacerdócio universal de todos os crentes” (1Pd 2,5: “Vocês servirão como sacerdotes consagrados a Deus”). A Carta aos Hebreus também afirmará, com fins universais: “De fato, Jesus foi encarregado de um serviço sacerdotal bem superior ao dos ‘sacerdotes comuns’ (sumo sacerdócio do Reino de Deus). E o acordo que conseguiu entre Deus e o seu povo (laós) é também superior, pois se baseia em promessas de coisas superiores”. (Hb 8,6). Por isso se dirá do povo antigo, do Primeiro Testamento: “A pedra angular (que é o povo eleito desde Abraão) rejeitada pelos construtores, esta veio a ser a mais importante de todas” (Sl 118:22). O povo de Deus (laós tou Theou) é mais importante que seus construtores e condutores.

  

A preferência clara, destacada nos evangelhos, são os oprimidos, pobres e despoderados. Servir também é concessão divina de dons e ministérios.  A ação da misericórdia, da compaixão, inclui essa dimensão da Graça. Tornar homens e mulheres dignos, alcançados pela salvação e libertação das misérias, das opressões, das exclusões, das desgraças e do abandono, é parte essencial da missão de Deus que é entregue ao povo de Deus, sacerdotalmente. Compreender e pôr em prática essa mensagem de amor comprometido com as causas do homem, de renúncia de privilégios eclesiásticos; renúncia ao propositismo pragmático, ao redor do sucesso financeiro e do poder de compra e de venda da Graça; é entender a doutrina apostólica de serviço até a morte.  São mínimas, ou simplesmente zero, as chances de cumprir-se a missão de Deus, através da evangelização panfletária e proselitista, ou através de doutrinas conservadas em formol (cf.: predestinação, por exemplo), desde os tempos iniciais da Igreja Antiga.

 

Enquanto isso o Reino de Deus dava lugar ao eclesiasticismo do qual não conseguimos nos livrar (Chenu:“Jesus Cristo inaugura o seu Reino, mas o que veio em seu lugar foi a Igreja...”). Nem mesmo a Reforma Protestante livrou-se desse assunto. O tipo de evangelismo resultou no que se observa hoje, desde as igrejas midiáticas que ofereceram "know-how" ao bem-sucedido neopentecostalismo anárquico desse momento. Batalhas espirituais, ministérios de cura e milagres, libertação e cura interior, quebra de maldições, restauração da alma e das finanças, dietas espirituais, neo-avivalismo urgente, “evangelho” da prosperidade, renascimento com libertação, são anti-teologias das mais apreciadas em nossos dias. E nunca a Igreja se afastou tanto das propostas expostas neste texto do evangelista Mateus (Mt 9,35-10 e 10,8): Jesus enviou apóstolos para a salvação do mundo, e não para o exercício de ministérios pragmáticos, interesseiros, para os fins da consolidação da fé egoísta que vigora hoje, restaurada do pelagianismo medieval: salva-te a ti mesmo...

 

No Evangelho, Jesus envia seus apóstolos com algumas instruções bem precisas: “Proclamem que o Reino dos Céus (Reino de Deus) está próximo. Curem os enfermos, ressuscitem os mortos, curem os leprosos, expulsem os demônios. Vocês receberam de graça, de graça dêem”. Perguntamo-nos: para que Jesus nos envia, neste mundo, senão para demonstrar o reino da misercórdia (xáris, hesed), do cuidado e da compaixão de Deus? Jesus se compadeceu, por que “viu que eles estavam cansados e abatidos como ovelhas sem pastor...”. Se olhasse para os homens e as mulheres, a humanidade de hoje, e encontrasse a multidão de 5 bilhões de pessoas carentes de dignidade, de direitos fundamentais, de direito á vida em plenitude, gozadas por possíveis bem-postos que completam o total de 6,5 bilhões de habitantes do planeta Terra, Jesus as veria como “ovelhas sem pastor”, necessitadas do cuidado sacerdotal dos cristãos? Entregaria a missão sacerdotal de Deus na direção da salvação do mundo inteiro, ou será que daria atenção somente aos “convertidos”, aos evangelicais, aos conservadores, aos ortodoxos; aos que se dizem seguidores da “sã doutrina” e com ela fazem proselitismo exclusivista setorial?

 

Daria atenção somente aos “predestinados” (o determinismo teológico à “perdição” ou “salvação”, antes que filosófico – fatalismo, conformismo, irreversibilidade do mal –  alimenta agostinistas, pelagianos, ou calvinistas particularistas, que ainda insistem em soteriologias abstratas, anti-evangélicas, anti-bíblicas,  malucas)? Felizmente, Karl Barth contemporizou, enfim, através de seu conceito sobre “dupla predestinação” para o gozo da Graça: "... a Graça é a gratuidade de Deus, ato seu, obra sua, vontade sua e reinado seu": "Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus" (Rm 8:1). Constantemente a Graça vira 'des-graça' em nossas mãos. Abusamos dela como se tivéssemos poder sobre ela (A Eleição de Deus em Graça, in: Karl Barth, Dádiva e Louvor, Sinodal, p.239).

 

A certeza da eleição sacerdotal dos cristãos não deve ser confundida com falsa segurança. A eleição ao sacerdócio cristão precisa ser sempre de novo assegurada (1Pd 2,11). A fé em prática denuncia o pertencimento, pois quem pertence a Cristo, está protegido do julgamento e da condenação (Rm 8,1). Porém, esta discussão pode não ser teologicamente bíblica, mas sim doutrinal. Pertence ao âmbito do inútil e dos argumentos inócuos da ortodoxia iluminista. Pertencem ao âmbito das especulações mediavalistas e escolásticos que continuam atormentando os cristãos com a perdição e o inferno, mas somente como destino das massas oprimidas... Nem precisava tanto, bilhões de homens e mulheres experimentam o inferno da desigualdade, entre os que têm de sobra, e jogam alimentos no lixo, e os sem-nada que mendigam um mínimo de pão, diária e concretamente.  Estes nem têm como preocupar-se com o inferno doutrinário, astral, existencial, metafísico,  luxo reservado aos bem-postos. Uns lutando dolorosamente pela sobrevivência, outros preocupados em consumir ou acumular  riquezas, bens sociais e culturais, à exautão... Tudo tem preço, no mercado da fé.

 

Texto: Rev.Derval Dasilio

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