10o. Domingo do Tempo Comum Ano "A" Gênesis 12,1-9/
Oséias 6,3-6 – Quero misericórdia, e não o culto
interesseiro Salmo 33,1-12 – Louvai a Deus com a misericórdia e o
cuidado uns com os outros Romanos 4, 18-25 –
Abraão e vigorou-se na fé e deu glória a Deus Mateus 9, 9-13 – Não vim para chamar os justos, mas os pecadores Nas comunidades cristãs onde se observam postulados fundamentais da fé cristã sobre Deus, sobre o homem e a sociedade, o Estado, os sistemas ideológicos e políticos, sociais e econômicos, esta é uma questão fechada. Disse Jesus: “Não vim para chamar ao Reino bons religiosos, devotos, mas as vítimas da sociedade excludente”. Bem poderia estar no Evangelho... É atualíssima, essa mensagem. Necessita ser conservada para que os jovens e os cristãos recentes saibam donde originou sua fé, sem os desvios que o chamado mundo neo-evangélico recente insiste em impor às novas gerações.
A fé protestante vive por esse motivo, malgrado o doloroso esforço em favor da acomodação ao evangelicalismo religioso, e o triunfalismo salvacionista, espiritualista, abstrato e falacioso, do fundamentalismo teológico. Conceitos bíblicos libertários colocaram-se acima dos conceitos medievais de uma “teologia da satisfação”, que contempla uma teologia da redenção individual, e que desembocou, desde o século das luzes (Iluminismo, séc. XVIII), no “pietismo” e no “avivalismo” fundamentalista, que também nos deram, desde o período histórico citado, o “protestantismo de missões”. No Brasil, missionários presbiterianos, metodistas, batistas, apresentavam suas alternativas à Reforma Protestante, já que esta não servia aos propósitos salvacionistas que se traziam dos EUA. Eis a idéia que chegou: “A sociedade humana está previamente condenada ao inferno, por juízo divino. Aos restantes resta o juízo final, que determinará o destino de todos, no além e na eternidade. É preciso salvar os indivíduos, eles mudarão a sociedade”. Essa receita não funcionou nem mesmo na origem, no lado de cima do Equador. Daria certo aqui, no lado de baixo? Na obra famosa, O Inferno, deveria estar escrito na entrada desse lugar: “Ninguém tem crédito, ninguém tem débito”, muito embora o famoso poeta Dante Alliguieri tivesse dito equivocadamente que o que estava escrito era “Deixai toda esperança vós que entrais”. Pobre Dante! Era míope e precisava de lentes corretivas, para ver mais longe... A ganância
propositista, eclesiologias importadas enlouquecidas pelos cálculos de
crescimento a todo custo, comprando ou vendendo a salvação pragmática e
materialmente, coloca-se
sempre acima de tudo isso, do bem e do mal. Esquece a misericórdia. Para
os que praticam a misericórdia e não encontram sentido no culto e na
religiosidade gananciosa – neste mundo evangelical impiedoso - através da
fé cristã percebida na religião responsável, isenta de influências
alienantes, a palavra de Jesus sobre a compaixão e a gratuidade é um
conforto. É necessário escutar o que o evangelho de Jesus que nos diz:
“não estais longe do Reino de Deus”, que Mateus chama “dos Céus”. Quantos
“céus”? Certamente todos os que se referem ao bem-estar dos homens e das
mulheres que hoje sofrem fome e sede de justiça. A grande utopia da fé
alcança todos os “céus”. Com a palavra o
evangelista. Os textos de hoje são uma chamada de atenção para que possamos examinar a nossa religiosidade, e em particular a qualidade da “minha religiosidade pessoal”. O que pensamos da misericórdia ou dos sacrifícios cultuais? A dimensão religiosa de vida, de minha comunidade, local ou nacional, a minha própria, em que está centrada? Está mais nos "sacrifícios" (hoje = vida cultual, ritos devocionais, celebrações, cerimônias religiosas, atos com dimensão explicitamente religiosa, vida consagrada, busca de santificação)? A dimensão espiritual e nossa prática centralizam a "misericórdia", a compaixão para com os outros, o amor solidário, a justiça, a participação na construção do Reino de Deus neste mundo? Para os profetas e para Jesus está claro: “Misericórdia eu quero, e não sacrifícios cultuais”. E eu? E nós? Por que gostamos tanto da adoração interesseira, do louvor propositista, de invocar a presença divina de um deus-quebra- galho? Mateus 9, 9-13 – Jesus não distingue pessoas segundo seu poder de compra do bem-estar, a misericórdia é gratuita, não envolve mercado e compradores. Sua opção pelos que não tem com que comprar, despoderados, fragilizados socialmente, injustiçados, é flagrante. No evangelho de hoje somos surpresos ao vê-lo escolher Mateus para ser seu apóstolo. Um cobrador de impostos, bem-posto, portanto, um colaboracionista do poder romano, alguém considerado como pecador ou descrente das leis religiosas, excluído da comunidade israelita. Se colocarmos numa balança as orientações espirituais de Jesus, no que se refere aos conteúdos do Evangelho, tantas vezes expressados publicamente, o desequilíbrio nos denunciaria. De um lado preferimos uma prática religiosa espiritualizada ou, no mínimo, um cristianiamo cultural, onde se acinzentam os conteúdos da fé bíblica, e a ética verdadeira e teologicamente evangélica. De outro lado, ignoramos que é justamente a massa despoderada o objeto da ética de Jesus: gratuidade e misericórdia. De fato chama atenção a eleição de Mateus, por parte de Jesus, mas surpreende não menos a reação de Mateus, que ao ouvir Jesus que o convidava para segui-lo, inesperadamente, levantou-se, deixou seus afazeres e o seguiu. Estava sentado, pois trabalhava como arrecadador. Escandaloso comportamento para as “pessoas de bem”, religiosos daquela época. Os pietistas, religosos, fariseus, ao verem Jesus jantando na casa de Mateus, procuram os discípulos e criticam a Jesus, dizendo: “seu Mestre come com gente de má fama”. E logo será visto em companhia de prostitutas, mendigos, estropiados, deficientes físicos, doentes mentais, leprosos, então classificados como “pecadores”. Literalmente. Por sua condição social ou por suas enfermidades, e não por sua situação “espiritual”. Marginais e marginalizados! Bem-postos, bem-sucedidos, em geral, não demonstram precisar de Jesus. Econômica e socialmente pragmáticos, “já encontraram sua própria salvação”. E não dispõem a repartir seu sucesso, suas fortunas, com eleitos de Deus. Entretanto, não são os discípulos, mas o próprio Jesus quem lhes dá a resposta com uma sentença cheia de ironia: “Não são os que se encontram sãos que precisam de médico, mas os enfermos”. O problema está em saber quem são os sãos e quem são os enfermos. Jesus parece considerar mais os que decidiram sentar-se à mesa com ele, dentre os quais está o bem-sucedido Mateus, compartilhando o alimento e o projeto de vida que vêm na inspiração do Reino. Surpreendente, os entendidos da Bíblia Hebraica, os fariseus, quem é conhecido por sua ortodoxia, ou forma correta de pensar, é relegado em função da ortopraxis. O bom modo de agir, em função das exigências libertárias e compromissos expressos no Evangelho (Mt 25: Mestre, quando te vimos? E Jesus responde: quando estive preso por motivo de consciência... quando estive perseguido, estrangeiro e exilado... quando estava nu e com frio... quando tive fome ou sedento de justiça... quando estava doente... quando me apresentei deficiente fisicamente...Todas as vezes que me vistes com os enfraquecidos e diminuídos socialmente...). A verdadeira lealdade a Deus passa pela prática da justiça e da misericórdia, do cuidado com o outro e a outra, e não por se refugiar no templo para holocaustos de animais, esquecendo-se da pessoa próxima e da distante. Estes sábios biblicamente, fariseus, na realidade eram teólogos e religiosos legalistas e radicais que não sabiam muita coisa a respeito de Deus, apesar de tão ligados ao culto.
No entanto a fé ou
adesão que Jesus solicita não consiste tanto em afirmar uma série de
verdades teóricas, quanto em adotar o estilo de vida proposto por Jesus,
as bem-aventuranças. A “fé fundamentalista”, ortodoxa ou evangelical,
corrige a “ortopraxis” do
Evangelho de Jesus a seu modo. Reduzida a uma série de “verdades
fundamentais”, ou “reta doutrina”, em geral obscuras e não a aceitação do
estilo de vida de Jesus e suas exigências de compromisso com a fé que ele
mesmo prega, e mais ninguém. Por isso nos perguntamos sobre dimensão
espiritual da nossa fé, e se nossa prática centraliza a "misericórdia", a
compaixão para com os outros, o
amor solidário, a justiça, a participação na construção do Reino
neste mundo? Para os profetas e para Jesus está claro: “Misericórdia eu
quero, e não sacrifícios cultuais”. Resumidamente: Jesus prefere
misericórdia, e não “vida consagrada”, ou “vida santificada”. Talvez
dissesse mais, hoje: “Abandonem o louvor interesseiro pela
misericórdia..., antes, tragam a compaixão, o cuidado, a misericórdia ao
altar”. Paulo se expressou claramente: “De graça recebestes, de graça
dai”. -------- Derval Dasilio - Escritos: www.derv.wordpress.com Site Pão Quente Diário: Atos 2,1-21 (ou Números 11,24-25) – Diziam: estão
embriagados! sob |